Desenvolvimento da criança

Vontade olímpica de aprender

By 28 de agosto de 2019 No Comments

Toda criança, mal nasce, tem essa vontade. Ela a exercita através dos olhos:  estatelados para formas,  cores e movimentos. Dos ouvidos:  atentos a ruídos, sons,  palavras. Das narinas: que usa para sentir  odores e  fedores, e fazer a triagem do ar,  sem o qual morre rapidinho. Do paladar: de início viciado no leite materno, que ama de paixão a ponto de recusar  as porcarias que ainda lhe vão impor. E do tato: que por mãozinhas ávidas vai tocando em tudo. Assim, com as ferramentas que a Natureza lhe deu – sem cobrar  (exceto dos pais, claro!) –,  ela encara com disposição a aventura da vida.

E a vai experimentando, estudando, apreciando com toda a força de seus hormônios e músculos! Aprende a se virar, dar cambalhota, engatinhar e deslocar-se até um ponto distante na sala, para ela um mundo imenso. Até que, aprendendo a correr, descobre áreas mais vastas, e sem freqüentar aulas de geografia amplia seu horizonte.

Descobre a consistência líquida da água, nas suas variações do gelado ao quente; no seu volume numa piscina, que lhe permite mergulhar e nadar; e depois, se tiver sorte, nas ondas  de uma praia ensolarada. E descobre que também pode boiar numa jangada, deslizar numa prancha, ou navegar em canoas e navios.

Interessa-se pela formiguinha fazendo-lhe cosquinhas no braço; por passarinhos, borboletas, vaga-lumes; por pesos pesados como o boi, nojentos como a barata (ó, injustiça!), brincalhões como o cachorro, perigosos como o marimbondo. Ela quer conhecer – em imagens nos livros e filmes, ou ao vivo na matinha (com o  papai, por motivos de segurança) – toda a infinidade de espécies que deve ter encantado Darwin. É até capaz de botar a mão numa tatarana-rata, e aí vai ter a lição da dor, que também faz parte do aprendizado.

E de tanto ouvir as pessoas ao redor falarem vai um dia também falar, de início sons soltos, experimentando a sonoridade como o violeiro afinando as cordas da viola. Depois sílabas, palavras,  repetidas ou inventadas, até que ocorre o fenômeno fantástico da frase, do período, do texto – e ela consegue agir no mundo das coisas usando sua língua paterna e materna, tão ferramenta quanto braços, facas e martelos.

Aprenderá a ler e escrever, adquirindo poderes inimagináveis para um analfabeto. Poderá viajar pelo Egito dos faraós, cruzar o  Nilo com os hebreus conduzidos por Moisés, entrar na caverna de onde Platão retirou sua alegoria, passar pelos mil anos de Idade Média, navegar com Pedro Álvares Cabral e redescobrir o Brasil.

Quanto mais avança no conhecimento, mais percebe a dimensão do infinito, tanto no sentido do grande quanto no do pequeno. Se mergulhar no microscópio, descobrirá que existem trilhões de bichinhos chamados bactérias. Se no telescópio, que a Terra é uma bolinha girando em torno de um gigante.

As coisas são infinitas. E todo ser humano  nasce com uma vontade olímpica de aprendê-las. Seu filho, lógico, está incluído.

Mas é preciso prestar atenção nas pedras que aparecem no caminho, colocadas por adultos sem noção, seja em casa, na escola, na igreja, apesar das ótimas intenções. Uma delas é a pressa. O recém-nascido não tem pressa  para aprender nada, nem Português. Mas aprende. O processo tem mais a ver com brincadeira do que com tarefa escolar. Outra é a ganância: querer abarcar o mundo com as pernas, aprender tudo. O antídoto é a humildade. Humildemente, faça a escolha do que aprender, e deixe o resto para os outros.

Mais uma: imposição. É obrigado a aprender isso e aquilo. Pode dar efeito contrário. Contrário e indesejado: porque além da lista de maravilhas, há outra, não menor, de horrores. Aprende-se a esconder dinheiro na cueca, decorar lições  para tirar nota, levantar falso,  beber até trocar as pernas, trapacear no jogo, compartilhar notícias falsas atualmente conhecidas como feiques, e coisas piores.

(Escrevi este artigo inspirado na experiência fantástica de Tábata Amaral. Veja no YouTube a sua história. Foi ela que fundou um grupo com o nome “Vontade olímpica de aprender”. Folha de São Paulo, 28.04.2012)

Edson Carlos Mendes de Souza

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